Depois de um interregno de onze anos, as tradicionais Festas do Povo estão de regresso. Mais de cem ruas irão ser engalanadas com flores feitas à mão. Uma festa que é acima de tudo, a celebração da alma dos campo-maiorenses.


Mário Costa


«As Festas do Povo nunca tiveram calendário fixo. Não se fazem por decreto, nem por obrigação. Há uma frase que explica tudo: as Festas fazem-se quando o povo quer. Esta irregularidade não é uma anomalia recente, sempre fez parte da história das Festas. Ao longo de mais de um século, houve vários intervalos longos, ditados por circunstâncias políticas, económicas ou simplesmente pela disponibilidade da comunidade. Depois de 2015, vários fatores dificultaram o regresso. A pandemia interrompeu planos e dinâmicas. Campo Maior também mudou: há ruas com menos moradores, há população mais envelhecida, há famílias com ritmos de vida diferentes. Tudo isto exige mais trabalho, mais coordenação, mais apoio. Mas o essencial manteve-se: o amor dos campo-maiorenses pela sua Festa. E é esse amor que nos permite dizer que, em 2026, Campo Maior volta a estar florido.» A garantia é dada às Selecções do Reader’s Digest por João Manuel Nabeiro, presidente da Associação Festas do Povo de Campo Maior.

Onze anos depois, de 8 a 16 de agosto, e por vontade da população, aí estão de volta as Festas do Povo de Campo Maior, que em 2021 foram classificadas pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade.


Para se perceber a origem destas festas, temos de recuar até século XVII e às festas de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior, que se realizavam a 28 de outubro para assinalar a data em que, em 1712, a povoação se teria libertado de um cerco militar. Essas festas foram caindo no esquecimento até que, nos finais do século XIX, quando foram retomadas, perderam o carácter exclusivamente religioso e passaram a ser festas populares. À habitual procissão juntou-se a iluminação noturna das tuas, as touradas, bailes e a ornamentação com flores de papel, feitas pela população.


Esta edição das Festas do Povo traz uma responsabilidade acrescida: é a primeira que se faz após a classificação por parte da UNESCO, e não se podem colocar em causa os pergaminhos desta festa. Para aqueles que possam pensar que a irregularidade da realização da festa pode colocar em causa a classificação da Unesco, João Manuel Nabeiro refuta completamente essa ideia. Aliás, essa irregularidade faz parte da essência das Festas. «Não tenho esse receio. Pelo contrário, 2026 é uma edição com um simbolismo enorme por ser a primeira a realizar-se depois da classificação como Património Cultural Imaterial da Humanidade, atribuída em dezembro de 2021. É uma estreia. E é uma responsabilidade acrescida. A UNESCO reconheceu, precisamente, aquilo que torna esta manifestação única: a participação da comunidade, a transmissão de saberes, o trabalho coletivo, a decoração das ruas com flores de papel feitas à mão e o facto de ser o povo a decidir e a construir a festa. A própria irregularidade, esta natureza de festa que “só acontece quando o povo quer”, faz parte da identidade reconhecida pela UNESCO. Portanto, o intervalo entre edições não contradiz nem desvirtua as Festas. O que seria preocupante era perdermos a participação popular, o segredo das ruas, o trabalho manual, a relação entre gerações e o orgulho comunitário. E isso, garanto, não está em risco. O nosso compromisso é fazer as Festas com o respeito que a tradição exige», afirma à nossa revista.


As expectativas para as Festas deste ano estão muito altas, com objetivos ambiciosos, até porque esta edição vai ultrapassar as fronteiras do concelho e contará com a participação de outros municípios e entidades convidadas. Até do lado espanhol. «O nosso objetivo é aproximarmo-nos das grandes edições anteriores e trabalhar para chegar a cerca de 100 ruas engalanadas. Sabemos das dificuldades que algumas ruas atravessam, mas há sempre alguém que se chega à frente. Esse é, no fundo, o segredo das Festas. Esta edição tem ainda outro traço distintivo: contará com a participação de outras tradições populares, num gesto de partilha e de reforço da internacionalização das nossas Festas. Teremos colaborações com Tomar, Vila Nova de Cerveira, Estremoz, Redondo, Alter do Chão, Crato e Elvas, bem como parcerias do lado espanhol, com destaque para Badajoz, Valdelacalzada e Alicante. Contamos também com o envolvimento de instituições convidadas, como a Confraria dos Bonecos de Estremoz e a Associação de Carnaval de Badajoz. Estas presenças não substituem a tradição local: somam-se a ela!», refere João Manuel Nabeiro.

Com um orçamento a rondar os dois milhões de euros, os preparativos para as Festas há muito que começaram. Desde o anúncio do regresso das Festas, em setembro de 2025, que em Campo Maior se vive um discreto mas intenso trabalho de confeção das flores que irão ornamentar as ruas. «Os trabalhos começam muito antes de se ver alguma coisa nas ruas. Essa é, aliás, uma das belezas das Festas: durante meses, Campo Maior trabalha quase em segredo. As flores fazem-se em casas, em garagens, em armazéns, em espaços cedidos pela comunidade, quase sempre à noite, depois do trabalho de cada um. A preparação exige, em média, sete a oito meses de serões intensos. Para 2026, o anúncio oficial foi feito em setembro de 2025, e os trabalhos ganharam ritmo a partir de outubro. À data da última reunião com os cabeças de rua, em meados de abril, a execução global da edição rondava os 60%. Naturalmente, o ritmo varia de rua para rua: há ruas mais avançadas e há ruas que ainda estão a precisar de uma ajuda, e é nelas que a comunidade se está a unir agora, nesta reta final, antes de agosto», explica o presidente da Associação Festas do Povo de Campo Maior.


A desertificação do interior do país, a que o Alentejo não é imune, a somar ao desaparecimento das gerações mais velhas que sempre contribuíram para as Festas do Povo – por significarem um perder de mão de obra e experiência –, são um desafio para o futuro das Festas. Mas João Manuel Nabeiro está confiante: «Coloca-nos desafios, sem dúvida. Seria errado escondê-lo. Campo Maior não é hoje exatamente a mesma vila de há trinta ou quarenta anos. Há ruas com menos gente, há pessoas que envelheceram, há outras que já não estão connosco, incluindo, este ano, o meu pai, que tantas vezes percorreu as ruas a aplaudir aqueles que faziam acontecer este milagre coletivo. A sua falta sente-se em cada flor. Mas eu não diria que isto põe em causa as Festas. Diria, antes, que nos obriga a trabalhar melhor. Temos de envolver mais famílias, mais escolas, mais associações, mais jovens, antigos moradores e todos os campo-maiorenses que, mesmo vivendo fora, continuam ligados à terra. As Festas sempre foram uma ponte entre gerações: quem sabe, ensina; quem está a aprender, continua. A flor de papel é simples na aparência, mas carrega uma memória enorme. Cada pessoa que aprende a fazê-la está a garantir que Campo Maior continua a ser Campo Maior.»


Expectativas elevadas


As Festas do Povo têm uma projeção nacional e internacional muito grande, e o facto de regressarem onze anos depois da última edição aumenta ainda mais a expectativa para este ano quanto ao número de visitantes. Em 2011 chegou a contar com cerca de um milhão de pessoas. Em 2015 foram cerca de 700 mil. Com a classificação da UNESCO, é natural que o interesse aumente. Mas João Manuel Nabeiro não quer arriscar um número. «Para 2026, mais do que fixar já um número definitivo, o nosso objetivo é preparar Campo Maior para receber bem quem nos visita. Temos um plano de comunicação alargado, que arrancou em abril e vai crescendo em intensidade até agosto.» Além da dimensão do trabalho de bastidores que está a ser feito, a dimensão de custos também impressiona. «O orçamento global ronda os dois milhões de euros, um valor superior ao das edições anteriores, em larga medida porque quase tudo aumentou de preço: materiais, energia, segurança, logística. Contamos com os apoios institucionais da Câmara Municipal de Campo Maior, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, da Direção-Geral do Turismo, bem como com o apoio do Grupo Nabeiro, que mantém intacto o compromisso identitário do meu pai com esta tradição. Em meados de abril tínhamos já adjudicados cerca de 336 mil euros em contratos logísticos: instalações sanitárias, segurança privada, som, estruturas, instalações elétricas, geradores e bilheteiras. A maior fatia da despesa, naturalmente, recai nas ruas. Em todas as categorias procurámos sempre o melhor equilíbrio entre qualidade e custo, porque é dinheiro da comunidade, é dinheiro de todos, e tratamo-lo com o respeito que merece», explica João Manuel Nabeiro. Mas há uma característica destas Festas que tem um valor incalculável: o trabalho voluntário de centenas de pessoas que desde outubro de 2025 trabalham para que nada falhe: «Se contássemos as horas oferecidas pelos campo-maiorenses ao valor do mercado, estaríamos a falar de um valor incomportável. É esse voluntariado, essa entrega, que torna as Festas únicas no mundo. E é isso, mais do que qualquer orçamento, que dá às Festas do Povo o seu verdadeiro valor.»