FILMES E HISTÓRIAS DA Big Apple

Filmes e Histórias da Big Apple


Conheça Nova Iorque através do cinema. 



TEXTO E FOTOS: Mário Augusto




Há uma evidência nos números sobre a cidade de Nova Iorque que demonstram a sua identidade única como um puzzle gigante multiétnico. Dizem as estatísticas que 37% dos nova-iorquinos nasceram noutro país. Há também estudos sociológicos muito curiosos que referem que em toda a cidade se falam mais de 800 idiomas. É um número que pode pecar por exagero na análise, mas há seguramente mais de 200 línguas e dialetos usados na comunicação permanente, o que faz desta cidade uma Babel que regista a maior diversidade linguística do mundo. Manhattan é muito mais do que um destino turístico, também é um eterno cenário de filmes que muitos procuram como um resto de luz do projetor. Poucas cidades do mundo causam tanto impacto instantâneo e juntam tantas imagens associadas ao seu nome.


O filme Boneca de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), de 1961, baseado no famoso romance de Truman Capote, é hoje um filme de culto, uma adaptação livre da história de Holly Golightly (desempenho da bela Audrey Hepburn), uma jovem cheia de sonhos, um pouco excêntrica e que procura o sucesso em Manhattan sonhando com um mundo que não existe. Holly toma o pequeno-almoço todos os dias em frente a uma deslumbrante joalharia na Quinta Avenida, e a sua vida dá uma reviravolta quando, no prédio onde vive, se cruza com um escritor fracassado que também procura o êxito que o leva à Big Apple (fica a explicação do nome para mais à frente). Para os dois vizinhos sonhadores, quando se encontram nada volta a ser como dantes. A cidade é também protagonista da história.


Nova Iorque é o cenário ideal para todos os géneros de filmes, é talvez a cidade mais filmada do mundo e partes da sua arquitetura são referências e até importantes elementos narrativos de múltiplas histórias com momentos inesquecíveis. Basta pensar que Boneca de Luxo estreou há sessenta e três anos e ainda hoje, todos os dias, quem passa pela joalharia Tiffany & Co., no número 727 da Quinta Avenida, encontra turistas a tirar selfies, recriando a famosa cena da Audrey Hepburn a espreitar a montra da loja com o seu icónico vestido preto Givenchy e o colar de pérolas. Muitos levam o filme tão a sério que para o registo do momento também vão beber um café e pedem um croissant ao pequeno-almoço na pastelaria da mesma rua, tal como a atriz representou no filme. Falta dizer que é nesta produção que se canta o famoso tema Moon River, o que ajuda ao encantamento da cidade.

Manhattan é um lugar mágico onde em qualquer esquina se encontram alguns dos spots turísticos que são referências imperdíveis para os cinéfilos de boas memórias.

Esses pedaços reais de filmes podem passar por subir ao topo do Empire Sate Bulding, que já foi o prédio mais alto do mundo, e posar para a fotografia como se fosse o King Kong em 1932. Para quem tem medo das alturas, porque não esperar uns minutos na fila para ter lugar sentado na mesa do Katz’s Delicatessen, a mesma mesa (garantem eles que é a que foi usada no filme!) onde em 1989, na comédia romântica Um Amor Inevitável (When Harry Met Sally), Billy Cristal e Meg Ryan têm uma conversa animada sobre as relações íntimas enquanto comem uma sanduíche. Ela tenta explicar-lhe que muitas vezes as mulheres fingem e ali mesmo, à mesa de café, Sally começa a simular excitação, gemendo alto e de um modo convincente, enquanto os outros clientes a observam atónitos nesse orgasmo simulado. No fim da cena, a velhinha da mesa ao lado pede uma sanduíche igual ao empregado, não vá ser esse o segredo do prazer.


São tantos os filmes de Nova Iorque que se perdem na memória os milhares de referências que o cinema guarda. Algumas dessas imagens – e pelas piores razões – já são apenas memória, como as Torres Gémeas do remake de King Kong que, na década de 1970, regressou à cidade, preferindo resgatar a sua amada (a estreia no cinema de Jéssica Lang) pendurado entre as duas torres que são hoje um ícone de saudade.


Os filmes catástrofe adoram retratar a destruição e levam milhares de turistas ao outro lado do rio. Esta zona da cidade, que foi de armazéns e indústrias, hoje é um quarteirão cultural e de artes onde o «DUMBO» referência não é o famoso elefante da Disney mas a abreviatura de Down Under the Manhattan Bridge Overpass. Neste bairro de artes é possível registar, com o enquadramento certo, a mesma vista que faz o cartaz do filme de Sérgio Leone, Era Uma vez na América. Lá ao fundo, entre armazéns, aparece recortada e imponente a imagem da Manhattan Bridge. 

O rio Hudson sempre ficou bem em qualquer filme, mas há um recanto na cidade que ainda hoje todos procuram à beira-rio. O filme Manhattan tem dos melhores momentos com vistas da Queensboro Bridge, onde assistimos às conversas dos protagonistas no filme de 1979, o próprio Woody Allen e a sua atriz constante na época, Diane Keaton. Passam as noites a falar no banco do Sutton Place Park, na 57th Street, com vista privilegiada para a ponte. Esta imagem também compõe o cartaz do filme e todos gostam de lá passar, tentando apanhar o mesmo clique, embora hoje o espaço esteja diferente. 


Sem grandes alterações em relação ao filme está o quartel dos bombeiros da Hook & Ladder Company 8. O local serviu de quartel-general fictício dos caça-fantasmas dos filmes de sucesso da década de 1980, e todas as produções posteriores foram depois usando a mesma fachada que, na verdade, é um edifício com grande valor histórico na cidade – ainda é um ativo quartel dos bombeiros construído em 1903. É um dos locais de romaria para os fãs dos «caça-fantasmas». 


Mas de todos os lugares da cidade, o mais célebre e reconhecido é a Estátua da Liberdade. Foi um presente da França em 1886, para celebrar o centenário do jovem país. Chegou à cidade de Nova Iorque por barco em 1885, eram 350 peças distribuídas por 214 caixotes. O braço da estátua que segura a tocha chegou à América dez anos antes, em 1876, e foi exibido numa exposição em Filadélfia com o intuito de arrecadar dinheiro para o projeto de construção, numa pequena ilha da baía. 

Pode dizer-se que a famosa estátua já desempenhou alguns papéis importantes no cinema. Por exemplo: a cabeça da estátua serviu de cenário a uma grande batalha no primeiro filme de X-Men realizado em 2000. Por várias vezes a estátua foi decepada e ficou de cabeça perdida em cenas importantes de filmes. Na década de 1960, o que sobra dela aparece no final de Planeta dos Macacos. Em 2008, no filme Nome de Código: Cloverfield, um monstro gigante também usa a cabeça gigante da Estátua da Liberdade para a lançar na Broadway. São muitas mais as cenas em que o argumento carrega no dramatismo ao utilizar a Estátua da Liberdade para cenas de grande impacto. Bem se poderia dizer que os filmes catástrofe adoram retratar a destruição deste grande monumento americano. 

Uma história que dava um filme 


Para lá das imagens eternas qual é, afinal, a alma desta cidade e o que a torna tão especial? Nova Iorque tem cerca de 20 milhões de habitantes, só na ilha de Manhattan vivem 1,6 milhões e muitos mais passam por lá todos os dias. Calcula-se que este ano de 2024 a cidade seja visitada por 64,5 milhões de pessoas, e a maioria delas chega nos 3000 voos semanais que aterram nos três aeroportos que servem a região. A cada visita há mais alguma coisa a descobrir, ou os locais de sempre que já se transformaram. Curiosamente, um dos lugares menos visitados pelos turistas é a Governors Island (ilha dos Governadores) – são apenas 70 hectares e fica a menos de um quilómetro de Manhattan, só se chega de barco. Governors Island era território de uma tribo nativa, os Lenape, que chamavam a esta ilha Paggank, «a ilha das Nozes», devido à grande quantidade de nogueiras e carvalhos que existiam no local.

O primeiro explorador a avistar estas terras em 1524 foi o navegador Giovanni da Varrazzano, que navegava ao serviço da coroa francesa. Chamou a essa região, habitada por indígenas, a Nova Angoulême.

O segundo aventureiro que explorou toda a baía algumas décadas depois foi o britânico Henry Hudson, em 1609, que prestava serviços ao reino dos Países Baixos. Em sua honra deram mais tarde o nome Hudson ao rio.

Os franceses reclamaram a descoberta das terras, mas foram os holandeses os primeiros europeus a instalar-se na região em 1614 – construíram o Forte Manhattan, que foi a primeira instalação europeia na zona da atual Nova Iorque.


Já em 1626, para alargar os domínios, Peter Minuit, governador da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, comprou a ilha de Manhattan aos indígenas por 24 dólares e criou uma colónia, à qual deu o nome de Nova Amsterdam, uma colónia influente que se especializou no comércio de peles adquiridas aos índios de toda a região.


Em 1674, pelo Tratado de Westminster, a ilha de Manhattan passou dos holandeses para os ingleses, que rebatizaram a cidade com o nome de Nova Iorque em homenagem ao duque de York. Com as colónias vizinhas já dominadas por ingleses, formaram a Nova Inglaterra. Toda a região de Queens, hoje uma das zonas mais populosas de Nova Iorque, foi batizada nessa altura em homenagem à rainha Catarina de Bragança, casada com o monarca inglês. Queens celebrou assim a portuguesa que levou o chá para o Reino Unido.


Com a presença dos ingleses, Nova Iorque ganhou importância e grande prosperidade económica como porto comercial, crescendo ao ponto de em 1754 fundar a Universidade de Columbia, ainda hoje uma das mais conceituadas do mundo. Até 1898 a cidade de Nova Iorque era unicamente a ilha de Manhattan, e com o alargamento do território de Nova Iorque uniram-se depois os distritos de Brooklyn, Queens, Bronx e Staten Island. Para essa unificação contribuíram muito as construções das famosas pontes e mais tarde os túneis de metro em 1904, que uniam a ilha a toda a região circundante. 

Nova Iorque, guerras e disputas 


Ao longo do século xviii, e em várias ocasiões, os colonos ingleses entraram em conflito com os vizinhos franceses pelo controlo da ilha, foram guerras que também envolveram as tribos indígenas que estiveram ao lado dos ingleses. 

É de realçar ainda o papel de Nova Iorque na Guerra da Independência dos Estados Unidos, aliás foi cenário de várias batalhas. Em 1775, os revolucionários impuseram-se contra Inglaterra e aprovaram a independência no ano seguinte. Finalizada a disputa, o Congresso reuniu-se em Nova Iorque onde nomeou George Washington como presidente em 1789, e durante um ano foi a capital federal do novo país, até ser transferida para Washington, D.C. 


No século xx Nova Iorque foi a grande porta de entrada de milhões de imigrantes europeus, no final da década de 1940 era considerada a cidade mais povoada do mundo, com uma crescente influência e poder económico e político, e depois da guerra passou a dominar o mundo a partir de Wall Street, da sede das Nações Unidas e mesmo culturalmente é hoje um dos polos mais dinâmicos e influenciadores do mundo. 

Uma das designações mais curiosas da cidade é Big Apple. Recebeu este popular apelido devido às corridas de cavalos. Num jornal local na década de 1920, a expressão Big Apple era escrita com o significado de «muito dinheiro» para o prémio. Ora, como se sabe a maçã (apple) é a fruta mais adorada pelos cavalos e, como as corridas equestres eram muito populares em Nova Iorque e os prémios mais chorudos, chamavam a esse prémio maior «maçãs grandes» (Big Apple). 

Um famoso repórter desportivo, John J. Fitz Gerald, deu o nome à crónica que tinha no jornal New York Morning Telegraph – a que chamava Around the Big Apple (à volta da grande maçã). Ele escreveu na sua coluna de opinião que nas corridas de cavalos só havia uma Big Apple e que era Nova Iorque. O nome pegou, e hoje o local onde o jornalista viveu é conhecido como Big Apple Corner. 

Quer seja com a música de Frank Sinatra, os filmes de Scorsese ou o encantamento esmagador da arquitetura, Nova Iorque é uma das cidades mais dinâmicas do mundo e quem a visita percebe logo no primeiro dia que na realidade a cidade nunca dorme, é uma vigília constante que abraça quem chega.


Em Brooklyn é obrigatória a visita ao Dumbo, o quarteirão onde se passam algumas cenas marcantes do filme Era Uma Vez na América. Cenário natural reconhecido no cartaz do filme.


A arquitetura de Manhattan é uma das suas marcas distintivas. Apesar da escala gigante da cidade, vale sempre a pena um olhar atento aos pequenos pormenores.


É uma das cidades mais cinemáticas do mundo. Cada estação do ano tem a sua magia. Na primavera a cidade transforma-se num imenso jardim. 


Na última década Manhattan sofreu uma transformação arquitetónica mantendo a sua marca de rasgar os céus. No lugar das Torres Gémeas nasceu um dos mais altos prédios de vidro do mundo que reflete a cidade nos seus vários enquadramentos.


Uma das esquinas da famosa rua da Broadway onde estão as grandes salas de espetáculos com produções que se mantêm anos e anos em representação. 


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