Um aquário em Londres pode ter encontrado uma forma de salvar os corais do mundo.


Martin Fletcher


Subimos rapidamente um pequeno lanço de escadas até um tanque de aquário iluminado, escondido atrás de uma cortina opaca, enquanto alguém grita: «Está a acontecer! Está a acontecer!» Ali, testemunhamos o início daquilo a que o meu anfitrião, Jamie Craggs, chama «a magia», e é uma visão impressionantemente bela.

No fundo do tanque, uma pequena «árvore» de coral, com cerca de 15 centímetros de altura, começa a desovar. Os pólipos nos seus ramos – cada um deles um animal vivo – estão a libertar o que o Dr. Craggs descreve apropriadamente como uma «explosão» de pequenas bolas luminosas rosadas, pouco maiores do que cabeças de alfinete. Milhares delas flutuam lenta e serenamente até à superfície, num cenário azul profundo.


É um privilégio raro ver a reprodução dos corais. O processo acontece apenas uma vez por ano e geralmente dura menos de trinta minutos. Eu observo, hipnotizado, mas o Dr. Craggs tem trabalho a fazer.

Cada bola, ou «feixe», contém até uma dúzia de óvulos e milhares de espermatozoides. Começa a recolher rapidamente os feixes com uma pipeta e, em seguida, sobe as escadas a correr até um pequeno laboratório antes que se rompam.

Aí, dois biólogos vão tentar – pela primeira vez na Europa – congelar criogenicamente o esperma para que os corais possam ser reproduzidos daqui a cem ou mil anos, caso os recifes de coral atuais sejam destruídos – como parece provável – pelas alterações climáticas.

Enquanto isso, o Dr. Craggs e os assistentes tentarão fertilizar os óvulos com o esperma de outras espécies de corais a fim de desenvolver híbridos mais resistentes ao aquecimento constante dos oceanos.

Em suma, tudo se resume a isto: se há alguma esperança de salvar os recifes de coral ameaçados do mundo, ela emana, em grande medida, do trabalho pioneiro que está a ser realizado aqui, nos confins improváveis de um aquário na cave do pequeno Museu Horniman, no sul de Londres.

O Dr. Craggs é o curador principal do aquário. Nascido há 48 anos, adquiriu o primeiro aquário aos 10 anos. Estudou Ecologia e Biologia Marinha, passou três meses a pesquisar recifes de coral nas Filipinas e outros dezoito como cinematógrafo subaquático a filmar recifes ao largo de Bornéu. Do London Aquarium, onde era aquarista-chefe, mudou-se para o Horniman em 2008 e, desde então, tem dedicado a sua vida profissional a tentar salvar os corais ameaçados de extinção do mundo.

«Os corais são animais muito importantes no nosso ecossistema», diz. «São habitats incrivelmente diversificados. Um metro quadrado de recife de coral contém tantos tipos diferentes de animais como um hectare inteiro da floresta amazónica.» E acrescenta: «Como resultado das alterações climáticas, estamos a perder esses corais. Eles precisam desesperadamente de ajuda.» Metade já está em apuros, incluindo a Grande Barreira de Coral da Austrália. Até 90% serão afetados se o mundo aquecer mais 1,5º– o melhor cenário previsto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Um aumento de 2º significaria que praticamente nenhum sobreviveria na sua forma atual.

Em 2012, o Dr. Craggs lançou o Projeto Coral, que é essencialmente um longo corredor em três níveis, escondido atrás do aquário que o público visitante do Horniman vê. As paredes estão revestidas de tanques cheios de corais, a maioria escondidos atrás de cortinas opacas, e de um emaranhado de tubos e cabos elétricos. É tão estreito que ele e os três assistentes têm de fazer aquilo a que chamam Horniman Shuffle para passar uns pelos outros. «Não é uma instalação de ponta, isso é certo», afirma o Dr. Craggs com uma gargalhada.

No entanto, conseguiu uma descoberta rápida e revolucionária: naquele primeiro novembro, viu um tweet de uma empresa de mergulho das ilhas Fiji a oferecer aos clientes a oportunidade de assistirem à desova de corais no mar dois dias depois. A partir dessa data, conseguiu calcular os ciclos lunares, a duração dos dias e a temperatura da água nos meses que antecederam a desova e, em seguida, replicou-os de forma rudimentar no aquário do Horniman.

No ano seguinte, ele e a sua equipa tornaram-se os primeiros investigadores a induzir a desova de um coral em cativeiro, não por acaso, mas propositadamente, no momento que escolheram. Isso aconteceu às 23h30 de uma noite de setembro. «Foi incrível», lembra o Dr. Craggs. «Houve muitos gritos e aplausos, e naquele momento compreendi exatamente o potencial disto.»

Gradualmente, aperfeiçoou a técnica. Colocou sondas nos recifes de coral, estudou gráficos da NASA e reuniu dados sobre o nascer e o pôr do sol, os ciclos lunares e os aportes nutricionais de diferentes partes do mundo. Inseriu essas informações em computadores e elaborou um programa para cada uma das cerca de 50 espécies de corais do aquário, recolhidas em todo o mundo, que replicaria exatamente os seus ambientes naturais.

Acima de cada tanque, luzes LED ajustáveis simulam o nascer, o pôr e o arco do sol todos os dias. Bolas de pingue-pongue partidas ao meio e colocadas por cima de outras luzes fazem o mesmo para a lua. A água é água da torneira, mas as impurezas são filtradas e é adicionado sal para reproduzir os níveis certos de salinidade.

Ao manipular essas condições, avançando ou atrasando os ciclos lunares e solares, o Dr. Craggs e a sua equipa conseguiram manobrar todos os corais do aquário para o mesmo «tempo dos corais». Agora, todos os corais desovam com uma semana de diferença e no momento preciso escolhido pela própria equipa.

Além disso, o Dr. Craggs enganou os corais para desovarem no início do dia de trabalho, fazendo-os pensar que é o pôr do sol, o que facilita muito a vida dos investigadores. O investigador aponta para um relógio digital vermelho na parede. O relógio mostra a «hora dos corais». «Para eles, são 06h53 da noite. Para nós, são 10h53 da manhã», explica.

A «mudança de fase» foi uma técnica inovadora, que o Horniman partilhou com pelo menos 20 outros aquários e instituições em todo o mundo, da Austrália, ilhas do Pacífico e Maldivas ao Médio Oriente e às Caraíbas. O museu também disponibilizou a técnica na Internet para qualquer pessoa que tenha interesse.

O que esta desova planeada e previsível permite é que os cientistas e investigadores adquiram, estudem e experimentem óvulos e espermatozoides de corais de uma forma que raramente, ou nunca, podiam fazer. E diferentes instituições estão a usar essa «ferramenta» inestimável de maneiras diferentes.

Algumas – como o The Florida Aquarium, em Tampa – estão a usá-la para recuperar e reconstruir recifes danificados não apenas pelas alterações climáticas, mas pela pesca, a poluição e outras atividades humanas.

São selecionados os corais mais duráveis e resilientes de uma espécie, por vezes de diferentes zonas geográficas, e induzidos a desovar em cativeiro. Em seguida, são fertilizados através de uma versão coralina da fertilização in vitro e os pólipos resultantes crescem até atingirem um determinado tamanho e resistência em condições artificiais, antes de serem replantados nos recifes danificados. «Isso ajuda a garantir o futuro desta estratégia de recuperação, porque estamos a ajudar a incluir uma nova diversidade genética na população que estamos a plantar», refere o Dr. Craggs.

Keri O'Neil, diretora e cientista sénior do The Florida Aquarium, disse ao Telegraph que «o trabalho inovador de Craggs na biologia reprodutiva dos corais revolucionou verdadeiramente a forma como abordamos a conservação e a investigação. As suas técnicas inovadoras para induzir de forma previsível a reprodução de corais em cativeiro abriram caminho para avanços sem precedentes na recuperação de corais».

No entanto, o Horniman e outras instituições estão a avançar ainda mais: estão a ser realizadas experiências para cruza diferentes espécies de modo a produzir um coral híbrido mais resistente ao aquecimento dos mares. Por exemplo, o Dr. Craggs descobriu recentemente que pode fertilizar uma espécie de coral da Austrália com outra das Fiji. Ele faz questão de salientar que estes corais híbridos geneticamente modificados não serão plantados nos oceanos para não se sobreporem ou destruírem as espécies existentes. O trabalho é uma «salvaguarda para descobrir o que é possível», afirma. «Estamos a aumentar o conjunto de ferramentas disponíveis para usar no pior cenário possível.»

Mas nem o desenvolvimento de versões mais duráveis das espécies existentes, nem a criação de híbridos mais resistentes, provavelmente salvarão os corais do mundo se a humanidade não conseguir combater as alterações climáticas. Por isso, o Dr. Craggs e a sua equipa também estão a trabalhar numa solução apocalítica. A criopreservação, ou congelamento profundo, do esperma dos corais para dar às gerações futuras a possibilidade de recriarem os corais muito tempo depois de terem sido extintos.

Há outros dois cientistas a trabalhar no Horniman no dia da minha visita. Tullis Matson, fundador e presidente de uma empresa chamada Nature’s Safe, e Debbie Rolmanis, a sua diretora de operações. Até ao momento, a empresa congelou o esperma ou tecidos de 256 espécies de animais, desde o rinoceronte-branco do Sul à rã-galinha-da-montanha, seriamente ameaçada de extinção e que apenas se encontra nas ilhas caribenhas de Montserrat e Dominica.

Nesse dia em particular, o Dr. Craggs leva rapidamente os «feixes» do coral reprodutor – uma espécie chamada Acropora kenti – para o laboratório, onde os dois biólogos o aguardam. Aí, o especialista agita suavemente o tubo que contém os «feixes», libertando os óvulos e espermatozoides. Matson e Rolmanis retiram o esperma à medida que este afunda abaixo dos óvulos e congelam-no rapidamente com o uso de nitrogénio líquido.

Dois dias depois, o Dr. Craggs liga para Matson para dar boas notícias: apenas 8% do esperma de Acropora kenti ainda era capaz de fertilizar óvulos após ser congelado e descongelado, mas 45% do esperma de outra espécie – Acropora millepora – conseguia fazê-lo.

Matson está entusiasmado. «Isto é verdadeiramente inovador», diz-me ao telefone. «Não é apenas o facto de termos conseguido congelar esperma de coral, descongelá-lo e obter embriões. São as implicações disso para o futuro do coral. Estamos apenas no início de algo muito especial na criopreservação de corais.»

O próximo desafio é congelar óvulos de coral para poderem ser fertilizados pelo esperma congelado, e para isso Matson tem de esperar pela época de reprodução do ano seguinte, a menos que o Dr. Craggs consiga enganar os corais para que se reproduzam mais cedo. Mas o que é um ano quando se tem em vista um século ou milénios no futuro, uma época em que a humanidade, esperamos, terá aprendido a viver com a natureza e não a destruí-la?

«Se conseguirmos congelar óvulos e esperma, podemos manter a genética do coral praticamente indefinidamente até que seja necessária daqui a dez, vinte ou mil anos. Se conseguirmos resolver isto, estará tão bom como no dia em que foi congelado», afirma Matson.

De volta ao sul de Londres, o Dr. Craggs fala modestamente sobre as conquistas da sua equipa. Enfatiza que trabalha em colaboração com colegas de muitos países e depende muito de subsídios e parcerias. Mas os cientistas e investigadores agora deslocam-se de todas as partes do mundo para visitar o aquário Hormiman e estudar o trabalho do Dr. Craggs, e ele vai regularmente a conferências para falar das descobertas notáveis que alcançou desde 2012.

«Olho para trás e vejo o que alcançámos nesse período e é deveras extraordinário», admite. «Recebemos muito visitantes de todo o mundo, e eles dizem: “Nem acredito naquilo que vocês conseguem fazer num corredor tão pequeno.”»